Terapia bagual do seu Getúlio
Homenagem a Luis Fernando Veríssimo
Marcio F S Medeiros
12/11/20252 min read
Certa feita, fui parar em Bagé por causa de um evento de trabalho. Entre a viagem, o sedentarismo e a cama que parecia feita de pedra com molas enferrujadas, acordei parecendo um origami mal dobrado. A dor nas costas era tanta que até para respirar eu parecia estar pagando penitência.
Depois de cumprir minhas obrigações profissionais — na base da fé e do analgésico mental —, pensei em aplicar uma técnica médica altamente questionável: beber cerveja até ficar meio borracho, na esperança de que a dor fosse embora ou, no mínimo, eu esquecesse dela. Fui então a um bolicho nas redondezas, o famoso boteco do seu Getúlio.
Getúlio era a cara da fronteira: cabelo liso já embranquecido, bigodão branco que parecia um rabo de andorinha mal humorada e aquela fala meio arrastada de quem já discutiu mais sobre cavalo do que sobre política. Pedi uma cerveja e fiquei lá, tentando me entorpecer. Mas, ao levantar para ir ao banheiro, ele me olha de cima a baixo e solta:
— Tchê, tu tá meio esgualepado… não quer uma ajuda? Já fui fisioterapeuta.
Dei aquele sorriso de quem já desistiu da dignidade e assenti com a cabeça. Na volta do banheiro, expliquei meu estado de bicho atropelado. Ele respondeu animado:
— Mas claro, te aprumo rapidinho. Nem te cobro, tu é cliente.
Deitei num sofá-cama suspeito, e logo senti os dedos de Getúlio — mais grossos que parafuso de trator — apertando minhas costas. A dor foi tão imediata que soltei uns gemidos meio constrangedores. Ele riu e disse:
— Bah, tchê, larga de frescura! Meu método é bagual, mas funciona.
Na sequência, o homem sobe no sofá, bota o joelho perto da minha omoplata e puxa meu tronco pra cima.
— Esta aqui é a técnica do joelho nas paleta. Serve pra destravar as paleta que tão lasqueadas.
Antes que eu tivesse tempo de duvidar, sinto um golpe lateral na lombar. Olho de canto e percebo: o desgraçado estava usando um facão.
— Esta é o pranchasso no lombo. Boa pra lombar emperrada.
Chorei. Mas chorei não de emoção, e sim porque quase vi minha alma saindo pelo olho direito. O mais incrível é que… funcionou. Levantei como novo, assustado com a violência rural das manobras, mas sem dor.
Curioso, perguntei:
— Mas Getúlio, onde é que tu aprendeu essas técnicas?
E ele, sem piscar:
— Trabalhei anos como fisioterapeuta de cavalo. Em gente é até mais fácil, porque não leva coice nem mordida.
Saí de lá renovado, sem dor nenhuma… e com a estranha sensação de ter sido o cavalo de ensaio do seu Getúlio.