Jossi e o Pequeno Problema
Descrição do post.
Marcio F S Medeiros
12/11/20253 min read
Jossileide era, aos olhos de todos, uma mulher de conduta irretocável: digna, honesta, pudica na medida exata que se espera de alguém “bem-casada”. Era daquelas que serviam de exemplo nas conversas de salão — respeitava o companheiro, segurava as pontas da casa, aconselhava as amigas como se tivesse um mestrado em sensatez.
Mas bastava estar solteira para que outra entidade emergisse. Não Jossileide — mas Jossi, seu alter ego indomável. Jossi era um furacão de categoria cinco, desses que passam deixando prejuízos emocionais e lombares. Nenhum homem ficava em pé. Ou melhor, ficava em pé, mas não de pé.
Após anos de relacionamento morno — para não dizer gelado com neblina e geada — Jossileide renasceu como uma fênix sexualmente ressentida. Estava decidida a recuperar o “tempo perdido”, talvez até com juros compostos.
E foi assim que ela e a fiel escudeira Kariellin iniciaram uma temporada de campo etnográfico noturno: bares, pistas, clubes, o que viesse.
Certa noite, no breu colorido de uma boate, Jossileide avista um exemplar masculino encostado na parede, equilibrando o copo de cerveja com o mesmo entusiasmo de quem segura um boleto pago.
— Amiga, olha aquele gatinho ali — disse, inclinando o queixo como quem avalia mercadoria no mercado.
— Amiga… não sei não. Tem cara de quem fede a desodorante vencido — respondeu Kariellin, convicta.
— Tu que é fresca. Vou lá. Depois te conto.
O nome do espécime: Cleverson. Ali estava ele, com o dedão preso no bolso da calça jeans e a postura clássica do homem que acredita que masculinidade é um estado de espírito sustentado por cara de mau e coluna torta. Na prática, parecia apenas que estava cansado da própria existência.
Jossileide, porém, havia saído de casa com um propósito. Aproximou-se dançando, lançando olhares tão diretos que, se fossem projéteis, Cleverson estaria hospitalizado. Ele correspondeu com um elogio genérico sobre o cabelo — o tipo de frase que o homem diz quando ainda não decidiu o que está acontecendo — e pronto. Beijo vai, beijo vem, mão vai e mão vem... e logo seguiriam para um motel.
No caminho, tudo parecia promissor: conversa fluindo, mãos exploratórias, química de revista de banca. Até que, no quarto, a primeira surpresa: ao apalpar a região frontal do rapaz, Jossileide encontrou um volume suspeito. Grande demais para ser real, artificial demais para ser sonho.
Descobriu ali, ao vivo e sem ensaio, o milagre contemporâneo: enchimento de cueca comprado pela internet, provavelmente importado da China junto com fones Bluetooth e promessas de autoestima instantânea.
Cleverson, sentindo que estava diante de uma mulher “para a maldade”, decidiu dispensar protocolos. Pelou-se com a rapidez de quem está trocando de roupa para consulta médica e foi para cima dela com uma desenvoltura… questionável.
Jossileide, apesar de desejar a noite, tinha princípios. Gostava de ser tratada, no mínimo, como uma vagabunda com dignidade. Não exigia romance florentino, mas um flerte minimamente articulado, um elogio que não envolvesse partes do corpo, uma frase que tivesse verbo e sujeito.
Cleverson não entendeu o timing, avançou de modo brusco, quase técnico, e a ansiedade tomou conta dele. Somando insegurança pré-existente ao medo do julgamento, o inevitável aconteceu: uma brochada histórica, do tipo que derruba autoestima e interrompe linhagens familiares.
Quando Jossileide finalmente observou a verdadeira dimensão do “instrumento” do rapaz, soltou uma risada tão espontânea que até o travesseiro julgou.
— Meu Deus… parece o pintinho dos bonecos que eu tinha quando era criança.
Cleverson derreteu como vela velha. A noite terminou sem sexo, sem romance, sem dignidade — mas com muita história. Jossileide, no dia seguinte, rendeu gargalhadas na mesa do café; Cleverson, por sua vez, ganhou mais um trauma para chamar de seu e jamais voltou ao bar onde a conhecera.
E, de quando em quando, quando se cruzavam pela rua, Jossileide mordia o lábio, tentando conter a explosão de riso que o simples flashback do “pintinho articulado” lhe provocava.
Afinal, algumas memórias não têm preço — mas têm um tamanho muito específico.