A tragédia intestinal de André
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Marcio F S Medeiros
12/11/20252 min read
Existem muitas dimensões da vida que são vexatórias, mas poucas superam aquelas relacionadas ao império dos excrementos. Nada é mais democrático do que o intestino: ele não respeita cargo, status social nem biotipo. Quando decide agir, ele age.
André, rapaz comedido, saudável e atlético, era o tipo de cidadão que poderia muito bem estampar a capa de uma revista de bem-estar. Nutricionista em dia, treinos regulares, corpo afinado como um motor japonês. O problema era o convívio social. Entre seus amigos, destacavam-se Pedro e Augusto, boêmios convictos, com a barriga protuberante de quem considera a cerveja um patrimônio cultural.
Quando saía com eles, André sucumbia à farra: chopp em excesso, frituras em estado de crime nutricional, e sobremesas de gosto duvidoso. Para seu corpo disciplinado, aquilo era como despejar gasolina batizada em Ferrari. Resultado: dor de barriga garantida.
Na manhã seguinte, André acordou com a orquestra intestinal afinando os instrumentos. Correu ao banheiro e pensou ter vencido a batalha. Tomou café e foi trabalhar, acreditando que tudo estava sob controle. Ingênuo. O glúten da cerveja e os excessos da noite anterior ainda estavam organizando um motim no intestino.
No carro, André soltou discretos gases de alívio. Nada demais. Já no escritório, confiante por ter sala própria, ousou liberar mais um. Foi aí que o universo decidiu se divertir às suas custas. O que parecia apenas vento trouxe consigo uma pasta marrom, discreta na quantidade, mas devastadora no efeito.
O suor frio escorreu: “me caguei”. Eis o abismo moral: a derrota do cérebro diante da tirania do intestino. A filosofia popular não mente — se o intestino é o segundo cérebro, naquele dia ele foi o primeiro-ministro do corpo de André.
Mas restava o dilema: como sair do escritório sem ser descoberto? O salvador seria Marcos, colega disposto a ajudar, mas também conhecido por transformar qualquer segredo em folclore de corredor. André, resignado, enviou a mensagem fatídica:
— Marcos, preciso de ajuda... me caguei. Preciso ir pra casa.
— Tu o quê?
— Cara, não dá pra explicar agora. Me ajuda a sair.
— Tá. Vou inventar uma reunião. Sai correndo quando eu chamar a galera.
O plano funcionou... até certo ponto. No elevador, vazio no início, o destino pregou a peça final: no andar seguinte entrou uma mulher deslumbrante. André pensou em agradecer aos céus — mas os céus estavam ocupados, porque o cheiro denunciava o inferno. A expressão angelical da moça se deformou em um misto de náusea e indignação. O silêncio foi sepulcral, mas o julgamento, implacável.
Em casa, André tomou o banho mais demorado de sua vida. Mas dignidade não se esfrega com sabonete. Pior: Marcos, fiel à sua natureza, transformou o episódio em lenda corporativa. No dia seguinte, André foi recebido com um bolo de chocolate suspeito e o novo apelido que jamais o abandonaria: “Marrom”.
Porque, no fim das contas, ninguém se lembra das planilhas entregues, mas todos lembram do colega que perdeu uma batalha intestinal no horário comercial.