A injustiça flatulenta de Jorge

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Marcio F S Medeiros

12/11/20252 min read

Certa feita, Jorge, um trabalhador meticuloso de uma empresa imobiliária, iniciou sua jornada com a serenidade de quem acredita estar no controle do próprio destino. O detalhe trágico-cômico é que, na noite anterior, havia devorado quantidades industriais de feijão com repolho — uma mistura que, segundo a tradição popular, deveria vir com bula e aviso de perigo biológico.

Ciente da bomba-relógio intestinal que carregava, Jorge armou-se com medicação e estratégia: visitas discretas ao banheiro e borrifadas generosas de “Bom Ar” dignas de uma campanha de marketing. Até certo ponto, a tática funcionou: nenhum desastre, nenhum escândalo, nenhum nariz ofendido. Jorge já se sentia quase um herói moderno, um mártir do autocontrole.

Porém, como ensina a vida (e também o feijão), a vitória nunca é completa. Precisando erguer uma caixa com papéis, o esforço físico foi acompanhado por um traidor silencioso: um peido fantasma, inaudível, mas com uma potência olfativa que faria inveja a uma usina de gás natural.

No instante inicial, Jorge até acreditou que escaparia. Mas eis que o destino conspirou: justamente naquele momento entrou uma leva de colegas para a reunião de metas. Um verdadeiro combo corporativo: PowerPoint, cafezinho requentado e, agora, uma nuvem tóxica pairando sobre o ambiente.

Jorge suava como um réu em tribunal. Confessar? Fingir demência? Esperar a acusação formal? Resolveu adotar a tática da esfinge: silêncio absoluto. Se alguém comentasse, faria uma piada, quem sabe até arrancasse risos. Mas a vida, cruel, tinha outros planos.

Entre os presentes, estava Fernando: corpulento, brincalhão, com fama de fazer trocadilhos infames. Não demorou para Juliana lançar a sentença:
— Nossa... que cheiro é esse? — disse, mirando Fernando com olhar inquisitorial, quase maternal.

O silêncio virou tribunal. Jorge, petrificado, observava. Fernando, confuso, piscava como quem não sabia se ria, negava ou corria para a janela. O cheiro, firme e convicto, permanecia, impregnando até as atas da reunião. A cada segundo, a atmosfera ficava mais densa — literalmente.

Todos se entreolhavam. Fernando, com sua silhueta generosa, virou bode expiatório automático. Jorge, encolhido em sua cadeira, degustava a injustiça: “Não basta peidar em silêncio, ainda roubaram minha autoria!”.

A reunião terminou, as metas foram definidas, e a flatulência entrou para os anais (com trocadilho inevitável) da empresa. Jorge voltou para casa com o gosto amargo da culpa não reconhecida. Fernando, por sua vez, carregava a pecha de culpado coletivo.

Assim terminou o dia: uma injustiça flatulenta pairando no ar, mais duradoura do que qualquer contrato imobiliário.